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sábado, 30 de janeiro de 2010

Partir: Graça de Uma Experiência Nova

Interressante como em nossa vida somos minuciosamente cuidados pela Providência Divina. Já parou pra pensar??? Essa Providência fica muito mais clara na hora de uma decisão séria: a decisão de partir.

Que mesmo com todo peso, é uma graça de crescimento. Bem, você já deve tá pensando que é só partir geograficamente, né? Também, mas não só. Entregar a vida nas mãos de Deus integralmente, exige muitas partidas, que levando o título de virtude, supera em dobro, a partida quilométrica.



Todo filho de Deus nasceu pra uma missão, isso já sabemos desde as aulinhas de catecismo. Porém, não é uma simples missão. É a missao de ser luz, fermento, sal em um mundo que está tão carente de modelos. E não só dentro do mundo eclesial não, dentro da esfera profissional há esse clamor também. Nós, os jovens, cada dia mais, nos deparamos com pessoas que não abraçam sua missão, não se comprometem com uma causa, e nisso, quem perde não é só você e eu, é o mundo.


Essas pessoas que insistem em parar na margem esqueceram-se de que é preciso partir. Partir ( e agora vamos ver como esse partir supera o geográfico) do egocentrismo para o amor-doação, partir do conformismo para a ação, partir do eu para o nós, partir do mais ou menos para o melhor, partir do pecado para a vida nova em Deus… e se fosse preciso, passaríamos o dia citando quantas despedidas são necessárias.

Às vezes, o alarde que é criado quando alguém vai embora não é simbólico. Pois podemos nos despedir e levar conosco uma carga de misérias que insistimos em cultivar nos solos do inconsciente. Mas a palavra de Deus hoje é de ordem: “Deixa tudo! que eu serei tudo em você”. Mas, vamos dar uma passadinha no deixar o palpável. Deixar a casa, os pais, os amigos, os irmãos e tudo o mais que julgamos importante dá um certo pânico. E é meio constrangedor a ideia de viver fora de casa, sejamos sinceros, dói muito! Porque, até então, ninguém nos ensinou a metafóra do desprendimento.



Fomos educados para viver na mesma cidade, seguir o mesmo ofício da família etc, porém, para ser regra tem que haver excessões, e há! Aí entra, literalmente, buscar outra vida, um jeito diferente de ser , e como tudo que é novo causa medo, a vida em um seminário também causa medos, e quantos!... Mas há uma ressalva: seminário é igual um namoro. No namoro você vai conhecendo a pessoa, seus defeitos, suas virtudes e ao longo do tempo tem a chance de escolher noivar e casar, ou simplesmente não. Não há diferença proporcional entre seminário e namoro. Você tá entendendo, né!?


A vida seminarística é um tempo de escolhas. Não vamos pra ser padre, vamos para descobrir a vontade de Deus. Se essa vontade é que sejamos padre, beleza, vamos adiante. Se não é isso, é hora de louvar a Deus pela graça de uma experiência nova, arrumar as malas e seguir outra direção, sem deixar de ser sinal da presença de Deus. Porque o importante não é chegar, e sim partir, sempre.

Termino esse texto com muita alegria. Alegria de saber e entender que sou amado por vocês , e não importa minha decisão, importa que vocês estão de braços abertos pra mim: pra me enviar pra missão ou para me acolher de volta se eu achar que não quero isso. Obrigado pelo carinho. Que o Espírito Santo Nos conduza. Porque ”Missão é partir’’ dizia Dom Hélder Camara.



Beijo e paz,

Izaquiel Arruda Siqueira.
























sábado, 23 de janeiro de 2010

JUNÍPERO: O CHAMADO DA SOMBRA

JUNÍPEROO chamado da sombra

Ah! se eu tivesse uma plantação de juníperos… talvez, sentir-me-ia bem mais seguro. Ou, ao menos, aliviado. Nunca o tempo presente foi tão necessário para colóquios com Deus, para oração pessoal.

Quando é que, em minha vida, eu pude imaginar que precisaria de uma arvorezinha para chorar e de uma sombra onde eu pudesse falar de mim? O Senhor está levando seus filhos para a sombra de Seu amor. Único lugar onde eu posso falar, chorar, reclamar… e também consolar minha alma, tranqüilizar meu coração, domar a minha mente…
O ser humano estacionou em si mesmo e abismou a própria vida nos sonhos e projetos pessoais - que não ouvem o convite da sombra do junípero. Aliás, alguns de nós nem sabe o que é um junípero, quanto mais se ele faz ou não sombra.

Os juníperos mudam, mas a sombra sempre será a mesma. A mesma Sombra que abraçou Maria e que encobriu a terra no momento da morte de Jesus.

Há muito tempo, um “amigo” chamado Elias* encontrou o seu junípero para encontrar a sombra do Altíssimo. Ele se sentou à sombra da arvorezinha. Ali ele chorou, lamentou-se, mostrou suas dores, sua falta de sorriso, sua tristeza mais profunda. E ali pediu para morrer. E pedir para morrer, é chegar ao limite de tudo. Limite das frustrações, das perdas. É chegar ao máximo, é constatar que está pesado demais.

A coragem de Elias, muitas vezes não é a minha coragem. Sou um bom católico, um excelente cristão mas sou medroso para a fraqueza. A minha coragem não admite mostrar minhas falhas, minhas misérias, minha pequenez, minha insatisfação. Eu sei muito bem reclamar do meu casamento para a amiga do escritório. Sei falar mal das pessoas para meu padre. Sei acusar meus filhos e meus pais. Mas não sei me enfraquecer diante de Deus.

Se alguém perguntasse o porquê destes tempos serem tão sofridos para os cristãos, acho que Deus responderia: “É porque estou chamando meus filhos para Minha Sombra. Às vezes, o limite é o único caminho para meus filhos chegarem até Mim”.

É perturbador saber que é na “Sombra do Senhor” que eu me revelo totalmente. Se Elias vivesse em nosso tempo, certamente estaria em um junípero chamado confessionário.

Passamos a vida por vários juníperos: o da dor da morte de alguém, o da solidão, o da tristeza e da depressão, da derrota, o da mágoa com meu pai e minha mãe, o do fracasso na faculdade, do adultério. Mas em todos eles O Senhor nos convida para falar, para partilhar com Ele nossas dores. Mesmo que seja uma vontade de desistir de tudo e de morrer. Deus quer escutar meus lamentos.

Ah! se a internet nos servisse neste momento como um altar do Santíssimo Sacramento. Sem medo de errar, esta seria nossa sombra mais segura.

Será que após este texto eu ainda não tive a curiosidade de descobrir o que é um junípero?

* I Reis 19, 4-8